A relação entre exercícios leves e Alzheimer voltou às manchetes em abril de 2025, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego e da Universidade Wake Forest divulgaram os resultados do estudo EXERT. Nele, quase 300 idosos com queixas de memória se exercitaram por um ano, e a função cognitiva deles permaneceu estável, mesmo entre quem fez atividades de baixa intensidade.
O resultado anima, mas as notícias costumam simplificá-lo. Dois detalhes mudam a leitura: o grupo “leve” não fez caminhadas, e o estudo não incluiu um grupo que ficou sem se exercitar. Por isso, vale entender exatamente o que a pesquisa testou antes de tirar conclusões para a rotina da família.
Neste artigo, você vai ver o que o EXERT encontrou, como ele foi montado e o que significa “exercício leve” em um estudo científico. Em seguida, vai entender por que a comparação com quem não se exercita exige cautela, quais perguntas continuam em aberto e como apoiar uma pessoa com queixas de memória a manter o movimento no dia a dia.
O que o estudo EXERT encontrou
O EXERT (Exercise in Adults with Mild Memory Problems, em tradução livre “Exercício em adultos com problemas leves de memória”) gerou dois artigos na revista Alzheimer’s & Dementia. O principal, de Laura Baker e colegas, testou os grupos de exercício entre si. O segundo, liderado por Aladdin Shadyab, comparou os participantes com pessoas de uma base de dados externa. O quadro reúne os achados:
| Pergunta | Resultado |
|---|---|
| Os dois tipos de exercício diferiram na função cognitiva geral após 12 meses? | Não. Os dois grupos tiveram trajetória parecida |
| A função cognitiva piorou nos grupos de exercício? | Não. Ela permaneceu estável nos dois grupos |
| Houve boa adesão ao programa? | Sim, a adesão foi alta |
| Como os exercitados se saíram diante de pessoas que receberam só o cuidado habitual? | Declinaram significativamente menos, segundo a comparação com a base externa |
| E o volume do cérebro? | Os dois grupos tenderam a perder menos volume, inclusive no córtex pré-frontal, na mesma comparação |
Os próprios pesquisadores esperavam ver piora ao longo do ano. Como isso não ocorreu, eles consideram que tanto o exercício de menor quanto o de maior intensidade podem ajudar a frear o declínio. Mesmo assim, a conclusão deles é cautelosa: o estudo sugere um efeito promissor, que ainda exige investigação.
Como o estudo foi montado
O EXERT é um ensaio clínico randomizado, o tipo de pesquisa que mais se aproxima de provar causa e efeito, porque o sorteio equilibra os grupos. Participaram 296 adultos sedentários com comprometimento cognitivo leve do tipo amnésico, que se caracteriza por queixas de memória acompanhadas de queda comprovada em testes. Um sorteio os dividiu em dois grupos:
| Grupo | Tipo de exercício | Intensidade | Frequência e duração |
|---|---|---|---|
| Aeróbico | Treino aeróbico supervisionado | Moderada a alta, entre 70% e 80% da reserva de frequência cardíaca | 3 a 4 vezes por semana, por 12 meses |
| Alongamento, equilíbrio e amplitude de movimento | Exercícios de baixa intensidade | Abaixo de 35% da reserva de frequência cardíaca | 3 a 4 vezes por semana, por 12 meses |
A reserva de frequência cardíaca é a diferença entre os batimentos do coração em repouso e no esforço máximo, e serve para medir a intensidade do esforço de cada pessoa. Treinadores de unidades da YMCA supervisionaram os participantes, e a equipe de pesquisa avaliou a função cognitiva e o volume do cérebro por exames de imagem.
O principal indicador foi um teste de cognição global que inclui medidas de função executiva, a capacidade de planejar e organizar tarefas. Em média, os participantes fizeram de 120 a 150 minutos de exercício por semana, com apoio social regular durante o programa.
O que significa “exercício leve” no EXERT?
Muitos textos sobre o estudo associam o exercício leve a caminhadas tranquilas. Essa associação não aparece nos artigos científicos. No EXERT, o grupo de baixa intensidade fez uma combinação de alongamento, treino de equilíbrio e exercícios de amplitude de movimento, com esforço abaixo de 35% da reserva de frequência cardíaca. O grupo de maior intensidade, sim, fez treino aeróbico, em ritmo moderado a alto.
Essa diferença importa por dois motivos. Primeiro, ela mostra que o “leve” do estudo é uma rotina estruturada, supervisionada e regular, e não qualquer movimento ocasional. Segundo, ela evita uma conclusão que a pesquisa não sustenta: o EXERT não testou a caminhada leve isoladamente, e por isso não permite dizer que ela produz o mesmo efeito.
O que o estudo permite afirmar é mais específico. Idosos sedentários com comprometimento cognitivo leve que seguiram, por um ano e com supervisão, um programa de alongamento, equilíbrio e mobilidade mantiveram a cognição estável, assim como os que fizeram aeróbico. Para a família, a lição prática é valorizar a regularidade e o acompanhamento de um profissional, mais do que a intensidade do esforço.
Por que a comparação com quem não se exercita exige cautela
O resultado mais citado nas notícias é que os dois grupos de exercício declinaram menos do que pessoas sem exercício. Essa frase merece atenção, porque o EXERT não incluiu um grupo desse tipo. Os autores do artigo principal reconhecem que, sem um grupo de comparação passivo, que não receba nenhuma intervenção, não conseguem confirmar que o exercício protege contra o declínio.
A comparação com o “cuidado habitual” veio de outro lado. No segundo artigo, a equipe de Shadyab confrontou os participantes do EXERT com pessoas semelhantes de um grande estudo observacional chamado ADNI, que apenas acompanhou a saúde desses voluntários ao longo do tempo. Esse tipo de comparação é útil, mas menos sólido do que o sorteio, porque os grupos podem diferir em aspectos que ninguém mediu.
Há ainda uma explicação alternativa, apontada pelos próprios pesquisadores. Participar de uma pesquisa, com encontros regulares, treinadores atenciosos e estímulo intelectual e social, talvez proteja a cognição, qualquer que seja o exercício. Nesse caso, parte da estabilidade observada viria da rotina e do convívio, e não do esforço físico.
Portanto, a leitura mais fiel é esta: o exercício supervisionado, mesmo leve, é compatível com a estabilidade cognitiva e merece investigação adicional, mas o estudo não demonstra que ele impede ou retarda o Alzheimer.
O que o EXERT ainda não responde
Mesmo sendo o maior ensaio rigoroso de exercício em comprometimento cognitivo leve, segundo a coordenadora Laura Baker, o EXERT deixa perguntas em aberto:
- Efeito de longo prazo. A análise principal cobriu 12 meses de exercício supervisionado, e ela não mostra se a estabilidade se mantém por vários anos.
- Outros perfis. Os participantes eram sedentários, com comprometimento leve do tipo amnésico e dispostos a seguir um programa supervisionado. Os resultados não se estendem automaticamente a pessoas sem alterações de memória nem a quem já tem demência.
- Dose e tipo ideais. Os dois grupos reuniram de 120 a 150 minutos semanais, e os autores levantam a hipótese de que o volume total de exercício, e não a intensidade, tenha contribuído para o resultado. Ainda falta testar essa ideia.
- Papel da adesão. Os autores observaram que maior adesão ao programa supervisionado se associou a menos perda de volume cerebral, o que reforça a importância da constância.
- Mecanismo. O estudo não explica por que o exercício teria esse efeito, e as explicações biológicas continuam em investigação.
Essas lacunas não anulam o valor da pesquisa. Elas apenas indicam que as recomendações práticas devem ser prudentes e que novos estudos, com grupo de comparação sem intervenção, precisam confirmar os achados.
Como apoiar quem tem queixas de memória a manter o movimento
O EXERT não entregou uma receita pronta, mas deixou uma pista valiosa: os participantes tinham treinadores, horários combinados e apoio social. Esses elementos ajudam a explicar a alta adesão e podem inspirar a rotina da família. As sugestões abaixo seguem o consenso geral da área e devem ser ajustadas com o médico do idoso.
- Combine um horário fixo. A repetição cria hábito e dispensa a pessoa de decidir todo dia se vai ou não se exercitar.
- Dê uma instrução por vez. Frases curtas e demonstrações funcionam melhor do que explicações longas.
- Acompanhe de perto. Quem tem alteração de memória pode esquecer o que estava fazendo, perder a noção do trajeto ou não perceber que se cansou, e por isso não deve se exercitar sem supervisão.
- Escolha algo de que a pessoa goste. Música, dança suave, alongamento em grupo ou jardinagem aumentam a chance de continuar.
- Ajuste ao dia. Em dias de cansaço, reduza a duração em vez de cancelar, para manter o vínculo com a rotina.
- Comemore o que deu certo. Um elogio sincero ao esforço pesa mais do que a cobrança por desempenho.
- Peça orientação profissional. Um fisioterapeuta ou um profissional de educação física adapta o programa à condição de cada pessoa.
Em qualquer fase, converse com o médico antes de iniciar ou de aumentar o esforço, sobretudo se houver doenças do coração, dores ou histórico de quedas.
Para o cuidador: o movimento como momento de convivência
Quem cuida de uma pessoa com queixas de memória costuma viver uma rotina cheia de tarefas e preocupações. Nesse cenário, o exercício pode ocupar um lugar diferente na agenda: em vez de mais uma obrigação, ele pode se tornar um encontro diário entre vocês dois.
Experimente se exercitar junto. Alongar lado a lado, ouvir a música preferida do idoso enquanto vocês se movimentam ou cuidar de plantas no quintal transforma o esforço em convivência. Além disso, essa parceria permite que você observe, com naturalidade, como a pessoa se sente: se está mais cansada, desorientada ou desanimada do que de costume. Anote essas observações para compartilhar com a equipe de saúde.
Lembre-se também de que o cuidador precisa de apoio. Dividir tarefas com outros familiares, pedir ajuda profissional em alguns períodos e reservar um momento seu de descanso não representam falta de dedicação. Pelo contrário, preservam a sua saúde e a qualidade do cuidado que você oferece.
Acompanhamento profissional: o que levar para a consulta
O EXERT mostra que o exercício funciona melhor dentro de uma estrutura: avaliação, supervisão e continuidade. Por isso, antes de montar a rotina, conversem com o médico que acompanha o idoso. Estas perguntas ajudam a aproveitar a consulta:
- Que tipos de exercício são seguros para a condição cardíaca, articular e cognitiva dele?
- Alguma medicação exige cuidado durante o esforço?
- Vale encaminhar para um fisioterapeuta ou para um profissional de educação física?
- Com que frequência devemos reavaliar o programa?
- Que sinais indicam a necessidade de interromper a atividade e voltar ao consultório?
Quem já recebeu um diagnóstico de comprometimento cognitivo ou de demência também pode conversar com a equipe de uma casa de repouso sobre o suporte disponível. O Espaço Vitalis informa que a equipe inclui fisioterapeuta e que a agenda reúne atividades físicas e terapia ocupacional. Para entender como a casa acolhe idosos com Alzheimer, leia a página sobre casa de repouso para idosos com Alzheimer. Se a sua dúvida é sobre os primeiros sinais de alteração de memória, o artigo Glucosamina e Alzheimer reúne os pontos que merecem avaliação.
Mitos e verdades sobre exercício e memória
Mito: só vale a pena se o exercício for pesado. O EXERT não confirma isso. O grupo de baixa intensidade manteve a cognição estável, assim como o de intensidade maior, e os dois tiveram resultados parecidos.
Mito: o exercício cura ou impede o Alzheimer. A pesquisa não afirma isso. Ela sugere que o exercício supervisionado é compatível com a estabilidade da cognição em pessoas com comprometimento leve, mas não demonstra prevenção nem cura.
Mito: quem tem queixas de memória deve evitar se exercitar. Os participantes do EXERT tinham justamente esse perfil e se exercitaram por um ano, com supervisão. Os autores consideram o exercício supervisionado uma estratégia viável e segura para esse grupo, desde que haja acompanhamento adequado.
Mito: caminhar sozinho é o melhor caminho. O estudo não testou isso. Ele avaliou um programa estruturado, com treinadores e apoio social. Além disso, quem tem alteração de memória pode se perder ou não perceber o cansaço, e por isso a supervisão é uma medida prudente.
Verdade: a regularidade importa. Os autores associaram maior adesão ao programa a menos perda de volume cerebral, o que reforça o valor de manter a rotina ao longo do tempo.
Perguntas frequentes sobre exercícios leves e Alzheimer
É um ensaio clínico randomizado, coordenado por pesquisadores da UC San Diego e da Wake Forest, que testou exercício em 296 adultos sedentários com comprometimento cognitivo leve. Ele comparou treino aeróbico de intensidade moderada a alta com alongamento, equilíbrio e amplitude de movimento.
O estudo não prova isso. Ele mostra que a cognição ficou estável nos dois grupos de exercício por 12 meses, o que sugere um possível efeito protetor, mas ainda exige confirmação.
Não. O grupo de baixa intensidade fez alongamento, equilíbrio e amplitude de movimento. O treino aeróbico ficou com o grupo de intensidade maior.
Não dentro do ensaio. A comparação com pessoas sem exercício veio de um estudo observacional separado, o ADNI, e por isso tem menos força para provar causa e efeito.
Em média, de 120 a 150 minutos por semana, três a quatro vezes, sob supervisão e com apoio social.
Conclusão: um sinal animador que pede leitura cuidadosa
O EXERT trouxe um dado encorajador: idosos com comprometimento cognitivo leve que se exercitaram com supervisão, inclusive em baixa intensidade, mantiveram a cognição estável por um ano. Ao mesmo tempo, a pesquisa tem limites claros. O grupo leve fez alongamento, equilíbrio e mobilidade, e não caminhadas. Além disso, o ensaio não teve um grupo sem exercício, e por isso não prova que o Alzheimer foi retardado.
Para a família, o caminho mais seguro combina três atitudes: valorizar a regularidade, buscar orientação profissional e acompanhar de perto quem tem alteração de memória. Dessa forma, o movimento passa a fazer parte da rotina sem criar riscos desnecessários.
Se você procura um ambiente com acompanhamento profissional, atividades físicas e convivência para um familiar na Zona Norte ou na Zona Sul de São Paulo, fale com a equipe do Espaço Vitalis pelo WhatsApp, conheça a estrutura e tire suas dúvidas.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com médicos e fisioterapeutas. Antes de começar ou ampliar qualquer exercício, converse com os profissionais que acompanham o idoso.
Fontes pesquisadas
Estudo EXERT
- Baker LD, Pa JA, Katula JA et al. Effects of exercise on cognition and Alzheimer’s biomarkers in a randomized controlled trial of adults with mild cognitive impairment: The EXERT study. Alzheimer’s & Dementia, 2025; 21:e14586. Apenas o resumo e os trechos de resultados divulgados na página da revista e no PubMed Central foram consultados. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- Shadyab AH et al. Effects of exercise versus usual care on older adults with amnestic mild cognitive impairment: EXERT versus ADNI. Alzheimer’s & Dementia, 2025; 21:e70118. Apenas o resumo foi consultado. Disponível em: alz-journals.onlinelibrary.wiley.com
- UC San Diego. Even Light Exercise Could Help Slow Cognitive Decline in People at Risk of Alzheimer’s. Miles Martin, 24 de abril de 2025. Fonte do desenho do estudo, dos resultados e das falas dos pesquisadores. Disponível em: today.ucsd.edu




